#31: Samuel Infante (Quercus)

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Com raízes rurais, desde muito cedo que Samuel Infante se interessou pela natureza, tendo vindo a associar-se ao longo dos anos a várias organizações nacionais e internacionais.

Natural de Castelo Branco, onde nasceu em 1976, o gosto pela fauna e pela vida selvagem germina através da televisão espanhola, por via dos programas do médico naturalista Félix Rodríguez de la Fuente. Na adolescência faz parte da Associação de Escoteiros de Portugal, período em que sobressai a apetência pela ornitologia.

Em 1990 ingressa na Quercus, em plena campanha pela criação do Parque Natural do Tejo Internacional, onde a ONG portuguesa então adquire o Monte Barata, junto a Monforte da Beira. Santuário natural em que Samuel Infante amadurece a consciência ecológica em actividades e campos de trabalho com activistas portugueses e estrangeiros.

Depois de estudar ciências naturais no antigo liceu da cidade, em 1998 o ambientalista ingressa na licenciatura em Engenharia dos Recursos Naturais na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco, onde nesse ano funda o CERAS. Graças ao trabalho de outros voluntários, desde então que o Centro de Estudos e Recuperação de Animais Selvagens trata animais feridos ou debilitados, na sua maioria aves, devolvendo-os posteriormente à natureza.

Em 2003 o jovem promove a criação do programa Antídoto Portugal, de combate ao uso ilegal dos venenos que continuam a matar espécies em perigo. É também co-organizador do ecofestival Salva a Terra, evento bianual realizado em Salvaterra do Extremo (Idanha-a-Nova), e que desde que foi criado em 2009 se tornou no principal mecenas do CERAS, tendo sido distinguido em 2013 no Portugal Festival Awards como o mais sustentável pelas boas práticas ambientais.

Entre 2001 e 2014, Samuel Infante foi dirigente no núcleo regional de Castelo Branco da associação nacional de conservação da natureza, período em que coordena a iniciativa LIFE – Inovação contra envenenamentos e o projecto linhas eléctricas e aves. Somam-se as acções de sensibilização e educação ambiental e de ecoturismo, bem como a colaboração em estudos de protecção do meio ambiente.

Após ter já representado a Quercus na União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais e em diversas comissões, em 2015 ingressa na direcção nacional da associação sem fins lucrativos, sendo actualmente coordenador do grupo de trabalho para a conservação da natureza e biodiversidade.

Do activismo clandestino à intervenção com suporte legal, permanecem as ameaças ambientais e a necessidade da participação activa na defesa da vida selvagem. Três décadas a cuidar do planeta, uma casa que é de todos.

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Para lá dos documentários de Félix de la Fuente onde foi buscar “a paixão pela biodiversidade ibérica” e das caminhadas dos escoteiros em que se detinha a observar a vida selvagem, a conversa com Samuel Infante sobre o presente (e o futuro) do planeta arrancou com a referência aos primeiros tempos de militância.
No início da década de 1990, época de um “activismo forte”, ainda sem “resposta das autoridades às denúncias”, um protesto em Castelo Branco a favor da reciclagem em que o jovem e outros ambientalistas depositam residuos junto à autarquia acaba com a sua detenção.
Os mecanismos que acabariam com as lixeiras a céu aberto surgiram mais tarde, mas não eliminaram outros problemas ambientais e de saúde pública desde então na mira do porta-voz da Quercus na Beira Interior.
São disso exemplo os projectos de conservação de espécies em perigo como o abutre preto, “extinto em Portugal quase quarenta anos por causa do uso ilegal de venenos”, mas agora com uma população significativa no Parque Natural do Tejo Internacional; o programa Antídoto Portugal, que visa “controlar e punir quem ainda usa estes métodos não selectivos” para eliminar predadores; ou as correcções nas linhas eléctricas de forma a diminuir o risco de colisão e electrocussão (“só nas áreas protegidas morrem entre 300 a 800 mil aves selvagens de mais de 180 espécies”).
Antes da criação do CERAS, “levávamos os animais para casa, ficavam na sede da associação”. Com a ajuda de voluntariado, donativos e apadrinhamento, o centro especializado na recuperação de aves de grande porte como grifos, águias e cegonhas acolhe três centenas de espécimes afectados também pela caça furtiva (“disparavam a qualquer animal, hoje apenas algumas aves chegam com tiro”), escassez de alimento ou alteração de habitat (“havia muita gente no campo e mais água disponível”), aposta na educação ambiental (“quando os devolvemos à natureza, levamos escolas, caçadores, agricultores”) ou colabora em estudos sobre zoonozes.
Sobre a flora autóctone, fica a crítica ao regime de rearborização (“é mais fácil plantar um eucalipto que um carvalho, e não há legislação que proteja a espécie”), com a devida justificação (“Nos eucaliptais não produzimos biodiversidade nem turismo. São desertos verdes.”) e chamada de atenção (para além do carvalho das beiras, “a área do sobreiro e da azinheira também tem vindo a diminuir”).
No que toca às oportunidades a explorar, Samuel Infante destaca a bio-construção em barro ou terra (recuperando materiais “económicos, saudáveis e ecológicos”), a melhoria da eficiência energética nos edificios públicos (“se se substituissem as lâmpadas por LED e colocassem painéis solares, teríamos uma recuperação imediata no PIB”) ou o “imenso potencial nas renováveis”, em contraponto com as barragens (“são um erro ambiental e económico: criam eutrofização das águas e em termos de produção não são rentabilizadas”).
Em relação às bacias hidrográficas, o alerta vai para a exploração mineira junto ao Zêzere (“são milhões de toneladas de resíduos há décadas acumulados à beira do rio, há contaminação com metais pesados, relação directa com alguns tipos de cancros”) e para a poluição do Tejo (“o rio chega moribundo à fronteira e voltamos a fazer descargas, há empresas identificadas mas não vimos consequências”).
Situação agravada pelo modo como são geridos os caudais ibéricos. “Espanha liberta água quando lhe interessa, e o Estado não reivindica junto da União Europeia o cumprimento da directiva quadro”.
Actualmente, a opinião pública está mais consciente das preocupações ambientais, “mas falta mobilização, associada ao excesso de informação.” O pensar global dos ecologistas, que “não são contra tudo”, reflecte-se a nível local, na nova plataforma colaborativa nacional do programa Antídoto, a instalar em Castelo Branco, ou na construção de abrigos no Tejo Internacional.

“Os ‘maluquinhos dos passarinhos’ estavam certos quando traziam estrangeiros para observar aves. É necessário que as pessoas possam disfrutar da natureza de forma assídua, senão dificilmente a vão proteger.”

Jorge Costa (texto) e Pedro Amaro (fotos)

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